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Por que a maioria dos rabinos não ensinam ou obrigam o feitio da ĥalitá?
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Está escrito no Talmud (trt. Babá Metsi'á 86a):
"Ribi [Iehudá ha-Nassi] veribi Natan, sof michná; Rabiná verav Achê, sof horaá!"
("Rabi Iehudá ha-Nassi e Rabi Natan marcam o fim dos Sábios da Michná (últimos tanaim);
Rabiná e Rav Achê (últimos amoraím) marcam o fim dos rabinos que podiam promulgar leis.")
Isto significa não somente que é-nos proibido promulgar novas leis,
senão que não precisamos
acatar nada que haja sido dito por qualquer rabino,
por maior que seja e de qualquer geração
pós-talmúdica, qualquer promulgação
que não tenha fonte no Talmud, ou não esteja baseada
em trechos talmúdicos. No segundo caso, variam opiniões,
e de todo modo uma delas pode ser acatada.
Esta regra é lembrada pelo próprio Rambam
(*) no prefácio ao Michnê Torá,
não sendo regra desconhecida e aceita somente pelos demais.
Rabi Chelomô ben-Adêret, um dos discípulos mais importantes de
Rabi Mochê ben-Naĥman,
ao ser questionado sobre a razão de ser necessário
efetuar a infusão da carne, pois já que a infusão em si fecha
os poros da carne e impede o sangue de sair dela,
para que, então,
precisa-se salgar antes, e
diz em resposta enviadas aos judeus
do sul da Espanha e Portugal, que mantinham o costume da ĥalitá
conforme recebido do mestre Maimônides e dos
geonim babilônios, que não há mais sangue após o salgar e lavar posteriores,
pelo que "tampouco ele entende as palavras de Maimônides,
nem entende sua forma de pensar neste assunto".
Semelhantes palavras escrevera rabi Nissim
(sobre o assunto de salgamento de peixes em conjunto com aves - Ĥulin 112b) em nome de seu mestre,
Rabi Mochê ben-Naĥman, afirmando que
o líquido avermelhado que escorre após o último
lavar da carne "não é sangue, senão caldo vermelho, e assim ouvira de seu mestre".
Parece que seu próprio colega, o
rabino
Chelomô ben-Adêret, discorda de ser
apenas "caldo vermelho", pois afirma claramente ser sangue e ainda mais vermelho
que antes de a carne ser salgada. Mas é claro - não há aqui um motivo especial
para ir contra o que o Rambam escolher, mesmo por serem de diferentes regiões, de diferentes
culturas, de diferentes escolas, mas sim, pelo simples motivo de não terem
fonte talmúdica para as palavras de R. Mochê ben-Naĥman,
pois neste caso é lógico e perfeitamente justificável a contenda.
Conforme escreve o próprio Rambam, não devemos aceitar algo que não
dispõe de fonte talmúdica no que concerne à
lei judaica. Este é também o mesmo sustentáculo no
qual apoiam-se todos os sábios da época.
Neste mesmo fulcro apóia-se também
o maior defensor do Rambam,
o rabino escrito do "Magid Michnê", rabi Abraham de Botón,
ao dizer que este recebera a lei de ĥalitá
de seus mestres rabi Itsĥaq Al-Fassi e dos geonim babilônios - peso equivalente ao
escrito no Talmud devido à fidelidade ao transmitido de geração em geração
e de tribunal a tribunal desde o selamento do Talmud até o último dos geonim. Ou seja,
o Rambam recebera uma tradição verdadeira e intacta.
Mesmo assim, e apesar de o próprio Bet Iossef aceitar as palavras do
Magid com grande respeito, chegando a promulgar no
Chulĥan 'Arukh
que deve-se efetuar ĥalitá segundo as palavras de Maimônides
(Iorê De'á, siman 69:19 - leis de salgamento
(*) - veja suas palavras no Bet Iossef),
e somente devido às palavras do
Rabi Mochê Isserles -
o maioral dos asquenazitas em suas discordâncias do trazido no Chulĥan 'Arukh -
é que também a maioria dos sefarditas
deixaram a prática da infusão,
ainda é difícil entender o porquê
de devermos aceitar o trazido no Michnê
Torá somente por ser tradição
direta, depois que o próprio escritor escrevera
que nossa obrigação é
somente com o que consta no próprio corpo do Talmud.
Ou seja, enquanto que o
Ramá vem defender o que já
era costumeiro entre os asquenazitas, vemos que o ponto crucial do problema entre
os rabinos castelhanos - que nunca defenderam
costumes contrários ao promulgado no Talmud -
é simplesmente aceitar o promulgado
pelo Rambam por não disporem de fontes talmúdicas
para tal, e são contra a tese aplicada como método pelo
Magid Michnê,
posição posteriormente
adotada pelo autor do Chulĥan Arukh,
segundo a qual deve-se levar em conta que
o recebido do Rambam se não dispõe de fonte direta no Talmud,
dispõe de fonte indireta nas palavras dos sucessores dos amoraím.
Que ocorreria, então,
caso encontrassem fontes para o trazido
escritas no próprio Talmud? Com certeza, não somente
aceitariam o que dissera,
senão tornar-se-íam seus principais defensores,
pois a fidelidade ao trazido no Talmud foi o que os movera
em todos seus trabalhos - como se percebe claramente no livro
Torát ha-Báit do
Rachbá , e o mesmo dir-se-á em pertinência a todos os demais sábios castelhanos.
Também escrevera o gaon autor do
"Halakôt Gedolôt" que não é possível cozinhar carne sem
que antes seja esta colocada em água fervente, conforme as palavras do Michnê Torá,
e assim traz o
"Ha'amêq Cheelá" do grande rabino europeu, que assim confirma sua posição
Bahag no que
Rabi Iehudá Berlin traz acerca das Leis de Berakhôt,
escrito por Bahag sobre o cap. quinto do Trat. Berakhôt, onde usa o mesmo termo e expressão para
pão que foi colocado em água fervente. Similarmente a Bahag, escrevera
Rabi Mochê ha-Cohen de Lunnèlle, em nome dos geonim, apesar de não haver encontrado
a fonte talmúdica.
Considerando-se a fidelidade do Rambam ao Talmud e ao promulgado nele,
é difícil entender por quê causa traria algo dos geonim
sem que tivesse fontes no Talmud para tanto, pois bem é sabido que
são inúmeros os lugares e assuntos nos quais o Rambam deixa de lado
o que explanara em seu escrito anterior ao Michnê Torá - a exegese sobre a
Michná - ao trazer nova promulgação no Michnê Torá e,
ao ser perguntado, simplesmente responde: "Meus mestres [os geonim] fizeram-me errar nisto!"
Logicamente, não traria tal lei caso não estivesse perante si no próprio Talmud.
Quanto a seus escritos nos quais se firma - é indispensável citar que traz uma enorme lista
de escritos que, já nos dias dos rabinos de sua época, não encontravam-se entre eles,
como a
Mekhilatá e outras fontes de halakhá
tanaíticas. Isto, sem contar que o próprio Rambam
afirmara que "o Talmud que encontra-se em suas mãos foi corrigido pelos próprios
Amoraím",
o que condiz com a afirmação de diversos rabinos europeus de seus dias e posteriores a ele, acerca das
"gemarôt que se encontram na Espanha, e que são corregidas"
(*).
Em nossos dias, nos quais muitos manuscritos são descobertos e publicados,
a fonte talmúdica que se achava perante o Rambam também foi encontrada.
é a mesma trazida na versão de Rav Aĥái Gaon na cheelatá 68, na qual cita
o trazido no Talmud
"Corta-a [a carne] e salga-a, e lança-a à panela", que nos nossos exemplares,
e assim já há mil anos atrás, como comprova um dos exegeta provençais,
consta: "Corta-a [a carne] e salga-a, e mesmo que seja para a panela!" - Veja-se pg 93 do trat. Ĥulin,
e
Tossafôt,
que se dificulta em explicar esta frase estranha.
Portanto, sem dúvida alguma, se tal versão achasse perante os grandes sábios castelhanos,
com certeza não haveriam escrito nem Rachbá e nem R. Nissim o que escreveram, e muito pelo
contrário, estariam levando o povo a conservar mais fortemente o promulgado pelo Rambam.
Tal costume de efetuar o trazido no Michnê Torá com respeito à ĥalitá
é lembrado no livro Sêfer ha-'Itur, no qual diz que "tal costume é conservado em Damasco e todas suas
regiões cercaneiras, conforme as palavras do Rambam".
Portanto, fica claro que para a questão de comer carne crua, imediatamente após
a degola, é claro que tal não é permissivo
segundo o Talmud, os geonim e o Rambam, senão após a imersão da mesma em vinagre,
para que seja totalmente fechada em todos seus poros, e não há permissão alguma para comer
sangue, conforme parecem pensar alguns.
R. J. de Oliveira