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Discordância do R. Abraham ben-David com respeito
à fogueira para o doente.
A fonte trazida pelo
Ra'ava"d
encontra-se no trt. Iomá 84,
e tudo indica que
não refere-se a qualquer doente,
senão concernente a um
enfermo que corre risco de vida.
Portanto, conforme
chamara Maimônides a atenção
dos sábios de Lunnèlle
em uma de suas cartas,
toda leitura incorreta no Michnê Torá - ou seja -
toda leitura que não obedeça aos critérios
da linguagem na qual foi escrito, leva a erros e enganos.
Disse o Rambam em sua carta,
e coincide com o trazido no
prefácio a seu livro Michnê Torá, que
seu livro foi escrito na linguagem da Michná,
para que todos pudessem ter acesso ao escrito e
entendê-lo bem, o que não
ocorreria caso o houvesse
compilado em hebraico bíblico,
que pouquíssimos entendem ao ler.
Explica aos rabinos provençais que
a linguagem michnaica deve ser lida
ordenadamente, e sem interrupções
ou postergações de trechos ou mesmo palavras.
Caso esta regra não for obedecida,
a compreensão do que escrevera poderá ser errônea.
Se no princípio do capítulo,
no primeiro parágrafo, o
rabino Mochê ben-Maimon já deixou claro
que em todo caso de periculosidade ou risco vitalíceo
pode-se e deve-se profanar o chabat,
e no segundo parágrafo citou o acender uma vela
para o doente, que diferença tem a vela de uma fogueira?
Portanto, conforme dissera o r. Iossef Qáfiĥ,
acerca do trazido no parágrafo 14:
"Possivelmente, refere-se a doente no qual não haja risco vital...",
pois acerca de quem está em risco, já vemos acima,
e não é por todo doente que se pode
profanar o chabat. Contudo, facilmente pode enganar-se
o desconhecedor da medicina e comparar
impensadamente com a parturiente, devido ao que concerne ao sentir frio.
Todavia, conforme as palavras de R. Zerá no Talmud,
que explana acerca de qual parturiente pode-se acender para ela
uma fogueira, e qual não, conforme trazido no
comentarista
Magid Michnê,
o que nos mostra que mesmo para a parturiente,
não é a lei sempre a mesma,
senão difere de acordo com os dias
que sucedem ao parto.
Ou seja, nos primeiros três dias, nos quais encontra-se
em situação de séria periculosidade,
pode-se acender para ela a fogueira, mas daí até
sétimo dia, a lei já é um pouco diferente,
variando de acordo com o caso.
Nem é necessário adscrever que
desde os sete até os trinta difere mais ainda.
Portanto, conforme vemos acerca do doente no primeiro e segundo caopítulo,
aqui refere-se o Rambam a um enfermo que não corre perigo.
Mesmo assim, ainda fica difícil compreender,
pois o Talmud diz que "disse
Chemuel: "Acende-se uma fogueira para uma
parturiente no chabat!", e amoraím
tardios discutem entre si
buscando entender suas palavras, pois se disse
"...para uma parturiente!", pode significar que
somente para a parturiente, mas não para quem
quem esteja enfermo.
Mas, ao observarmos a continuação
da discussão entre
os amoraím posteriores,
encontramos que "disse rabi
Ĥiiá bar-abin, que disse Chemuel:
"Quem haja extraído sangue e se resfriado,
acende-se uma fogueira para ele, e até mesmo
no
período de tamuz"..."
Ou seja, qual a diferença deste para um doente comum?
Não estaria comprovando este amorá que
muito pelo contrário, comprova-se nas palavras do
próprio Chemuel que a compreensão anterior de suas palavras
é totalmente errônea,
e que mesmo em caso de resfriamento está
permitido acender uma fogueira,
e até mesmo em época de extremo calor!
Porém, parece que a compreensão do que foi dito
por Rabi Ĥiiá bar-Abin deve
ser verificado "com uma lupa" sobre o que disse,
pois se já entendemos que por uma parturiente
acende-se uma fogueira devido a seu frio,
o que extrai sangue não é diferente,
pois naquela época a extração
do sangue era feito para sua renovação somente,
por um orifício feito na cerviz da pessoa. O sangue era extraío somente
por pessoas extremamente práticos, devido à periculosidade que
há nisto, e por vezes a pessoa chegava a estar extremamente doente.
Não há, portanto, nisto distinção alguma
da parturiente em seus primeiros dias,
e o que um sofre, sofre o outro,
com exceção apenas das dores da parturiente.
Mas, no que concerne à periculosidade,
é a mesma.
Pergunta-se então o porquê de Rabi Ĥiiá
bar-Abin precisar dizer o que disse, se isto já era
compreensivo nas palavras do próprio Chemuel, e entende-se
que simplesmente veio dar respostas a quem quiz dizer que tudo o que
dissera Chemuel referia-se à época do frio, como inverno e outono,
ou princípio de primavera.
Então, diz: "...até mesmo em ípoca de tamuz!"
Por que, então, diz que em época de tamuz?
Se dissermos que no caso de uma parturiente é compreensivo,
seria o mesmo com respeito ao que extraíra sangue?
Poder-se-ía dizer que no que pertine a este último
a lei refere-se somente às estações frias,
e que no meio de verão
somente à parturiente seria permitido que se lhe
acendesse uma fogueira.
Então entende-se que o que traz R. Ĥiiá bar-Abin
refere-se ao fato de que no verão o sangue é agitado no
corpo, devido ao calor. Então, involuntariamente, o extrator de
sangue extrai muito mais do que pretende, e assim não
há diferença entre este e a parturiente em nada.
O bom entendedor percebe que todo o princípio
do capítulo refere-se a casos assim, pois com certeza,
não é o indivíduo do qual se extraíra
grande quantidade de sangue diferente de qualquer outro
enfermo que corra risco vital. Quanto à página citada
pelo Ra'ava"d em Iomá,
refere-se a enfermo que está em caso de perigo,
e aqui em nosso capítulo, refere-se o Rambam
a um doente que não corre perigo,
apesar de falar dele em seguida ou em conjunto com o que concerne à
parturiente, cujo caso é extremamente distinto. E, como sabemos disto?
Devido ao fato de o Rambam não ser tautólogo,
e já haver mencionado
o caso no qual tudo se faz pelo doente,
e profana-se por ele o chabat,
e principia-se pelos grandes de Israel
conforme consta no princípio do capítulo.
Portanto, se entendermos que o Ra'ava"d entende aqui que o
r. Mochê ben-Maimon escreve sobre um doente
que se acha em perigo vital, devemos entender que
sua leitura não foi
ininterrupta no que escrevera o Rambam, e por
isto escrevera o que escrevera.
Outrossim, ao verificarmos as palavras
de Rabi Mochê ben-Naĥman,
cuja posição é
quase sempre idêntica à do Ra'ava"d,
já que pode-se tê-lo
como um de seus maiores "herdeiros espirituais",
percebemos que na verdade o r. Abraham entendera
o rambam conforme a primeira compreensão,
ou seja, de que aqui não
trata-se de doente que se acha em perigo,
e portanto, a compreensão do
Ra'ava"d na gemará citada é que é
oposta à do Ramba"m. E assim,
voltamos ao busíles da questão.
Segundo escritos do
Ramba"n e de seu mestre, o
Raava"d, entretanto, percebe-se que opinam que pode-se acender uma fogueira para
uma parturiente durante todos os trinta dias, ou seja,
admitem que pode-se acender uma fogueira mesmo para um doente que não corre perigo!
Quanto ao Ramba"m, mesmo que o doente esteja em sério perigo,
salvo determinados casos, não há no frio perigo imediato,
e portanto pelo frio que sente o doente não se deve profanar o chabat com
o acender da fogueira, pois conforme sabemos, "chabat deĥuiá hi, velô hutrá",
pelo que não há motivo para uma profanação desnecessária.
Contudo, apesar do escrito acima constituir prova exata e aparentemente inexecrável
para a opinião de R. Mochê ben Rabi Maimon,
cabe-nos sermos retos conosco mesmos e perceber que há mais escritos em defesa da
posição do Raava"d, e entre elas, a que mais pesa é a do
rabino Chelomô,
av-bet-din da comunidade de Chelm, que traz a
gemará no trat. Chabat 129, onde consta "é indistinto se trata-se
de uma parturiente, ou de um enfermo, ou no verão, ou no inverno, etc",
porém, como se sabe, as gemarôt que encontravam-se em
mãos de R. Mochê ben-Maimon eram as mais
corrigidas, e segundo ele mesmo testifica, por mãos dos próprios
amoraím, pelo que o correto é que em seu exemplar não
constava esta frase, como pode-se comprovar através de outra página
do Talmud, a saber, 'Eruvin 79b, que são palavras de
Rabá, e exatamente
conforme trazido neste capítulo, tanto em relação à parturiente,
como concernente ao que efetuou a extração de sangue, mas exceto estes,
não consta nada. E, seria desnecessário para o Talmud enumerar estes, se para
todo doente pode-se fazer o mesmo.
Quanto ao que escrevera o
Magid Michnê, e compreendera o
Kêssef Michnê
que "anulara sua forma de pensar diante do que disse o Raava"d", devemos responder que
na verdade deixa transparecer o Magid Michnê que não deixara sua forma de pensar,
senão suas palavras finais mostram que tudo o que for feito é por um
acaso de um enfermo no qual haja periculosidade, e não em todo caso, conforme deixara
claro que o Ramba"m trouxe no intróito do capítulo, e segundo o que escrevera Rach"i
na explanação sobre a gemará.
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